Embriaguez noturna

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Verão. Janeiro, não escolhi chegar até você. Você não pediu para chegar até mim, entrou sem bater na porta sentou no sofá e de lá não parece querer sair. Transfigurado de tempo, seus dias estão contados. Imaginei que sua saída seria como os relógios de Dalí derretidos pelo excesso de calor.

Engano meu, você chegou de um jeito esquisito meio sem saber muito bem que roupa vestir, te vi em frente do espelho com a cabeça inclinada e os olhos espiralados tentando enxergar o próprio rabo. Deu duas voltas no próprio eixo
e por instantes perdeu o chão.

Sussurrei em seu ouvido: que cor quer usar hoje? Com as mãos entre olhos reencontrou o lugar onde estava e olhou mais uma vez no espelho. Nós sabemos a resposta sem precisar emitir nenhum som. É pintado de cinza concreto que você chegou e assim que pretende ficar.

Porém, intuo que pode oscilar com combinações de azul, aquele azul permeável, leve e molhado que atravessa caminhos trazendo um desejo lento de estar. Estar com as mãos quentes, o tórax preenchido de ar, o couro cabeludo cheirando a hortelã, as peles vivas e mortas, os olhos revirados, as salivas em contato.

Olho para você e peço para que não tenha pressa. Peço para que esse deleite da cor azul leve muito tempo para acabar preservando o fluxo infinito dos calafrios de uma noite passional.

Vá, ande, saia do sofá! Dê algumas voltas pra distribuir o peso da felicidade estampada e necessária. Ao voltar, por favor, não me conte sobre sua partida. Degustarei com excesso de prazer sua efemeridade.

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