A criança anterior

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É sempre assim: vejo uma criança em qualquer lugar e meu sorriso se abre na hora. É batata. Eu só consegui entender com o passar do tempo, e com muita reflexão, que isso que eu sinto não é extinto maternal (até porque acho que eu ainda não tenho a menor vocação para ser mãe), mas sim identificação. Quando eu entro no elevador do prédio, geralmente, cumprimento todas as pessoas com um simples “bom dia” ou “boa noite”. Mas quando tem uma criança… Ah, pronto.  Que vontade que dá de perguntar qual o nome dela, quantos anos tem, qual o nome da boneca ou onde ele comprou aquele skate bacana. Quando a criança é extrovertida, a gente acaba batendo o maior papo até que um se despeça primeiro. Quando é mais tímido, eu me contento em dar um “oi”, aceno e sorrio (sorria e acene o/). Quase sempre dá certo: os quietinhos também sorriem de volta. Criança nenhuma resiste a um sorriso! Só as mais chatas que sim. Daí pra essas eu mostro a língua.

Quando o pai ou a mãe é meio mau humorado, eu também tento me conter.  Eles acabam trazendo a criança pra perto, como se quisesse escondê-la de mim [o que essa doida tá querendo com meu filho?]. Aposto que pensam que eu posso ser uma mal feitora [sério que eu sou a única pessoa que ainda usa esse termo?] que posso roubar o filho deles. Mas tudo bem… com tanta coisa ruim no mundo, não dá pra gente julgar.

Outra coisa interessante que acontece comigo também é o fato de que as crianças que me conhecem não me enxergam como adulta. Certa vez, tive que interromper a brincadeira com as minhas vizinhas gêmeas [terríveis Isabela e Vitória de 6 anos] para ir para o trabalho. Eis que a Isabela me solta “você trabalha, tia?”. Fiquei tão surpresa com a pergunta quanto ela com a minha afirmação. “Achei que você ainda fosse para escola, como a gente vai”. Quem me dera né, Isabela?

Outra vez, perguntei para para o meu priminho Leandro [na época com 7 anos] o que ele achava que eu era, e a resposta foi “você não é nem pequena nem grande”. A minha primeira reação foi dar risada, é claro. Como ela diria aquilo com tanta certeza? O que significava, afinal? Forcei um pouco mais a pergunta, e ele me explicou que eu não era nem como ele, nem como a mãe dele. Então eu entendi que ele queria explicar que eu estava “no meio termo” entre ser criança e ser adulto. Forcei de novo, e perguntei com qual dos dois eu parecia mais. E a resposta foi muito mais especial: você se parece mais comigo.

Passei dos vinte anos e ainda assim aquela criança me via como uma delas. E olha que eu nem sou tão baixinha assim, e nem tenho traços delicados. Ou seja, fisicamente, não tenho um aspecto infantil. Mas deve ser porque eu ainda me reservo o direito de sentar no chão para brincar com elas, ou porque eu gosto de colocar aquelas dentadurazinhas de vampiro no meu sorvete, ou até mesmo porque eu compro a lembrancinha à parte no Mc’ Donalds, mesmo pedindo um Big Mac. Ou porque eu dou pulinhos de alegria quando realmente fico encantada com alguma coisa, ou porque aponto pro céu quando vejo um arco-íris, ou mesmo porque ainda assisto Chaves sempre que posso. Mas a verdade mesmo é que eles tem uma forma diferente de ver as pessoas. Costumo dizer que os pequenos veem com o coração, como afirmou O Pequeno Príncipe. Talvez, de um jeitinho bem especial, eles conseguem ver que dentro de mim há uma pureza que poucos adultos têm.

Não tô dizendo que sou melhor que os outros, não. Inclusive, confesso que isso me prejudica muito. Já fui enganada diversas vezes, já confiei em quem não deveria, já dediquei muito carinho e amizade para quem não merecia. Assim como as crianças, a maldade dos outros também me fere com mais força. Por sorte, nós (eu e as crianças) também nos traumatizamos com facilidade. E daí a gente fica marcado para sempre, criando uma super ultra mega defesa! 🙂

O lado bom é que a gente constrói fortes laços pela vida a fora. Além de manter a família sempre por perto, a gente consegue nutrir as amizades sinceras, aprende a cuidar de um grande amor e não desperdiça nenhuma dessas coisas. Valorizar os sentimentos verdadeiros é algo que só crianças sabem fazer com maestria! 

Agora sinto que estou chegando cada vez mais perto de me tornar uma adulta por completo. Sei que pode parecer estranho ainda estar colocando em pauta esse questionamento, mesmo depois de me casar e de tocar a minha própria vida. Acontece que lá dentro, sinto que ainda há muita coisa para amadurecer. Vai ver, outras pessoas também sentem a mesma coisa, só tem vergonha de admitir. E eu, como praticamente toda criança, não tenho vergonha de mostrar nada do que sinto. Ao contrário: o sentimento brota, esbanja e sorri.

E que bom que eu sou assim! 🙂

 

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